Disciplina PRJ 052

ATHIS: Assessoria Técnica: Uma Prática em movimento

A disciplina PRJ 052 – Assessoria Técnica: Uma prática em movimento foi desenvolvida no primeiro semestre do ano de 2022 sob orientação das professoras Marcela Silviano Brandão e Letícia Notini. A disciplina teve o objetivo de gerar discussões sobre a Assessoria Técnica no Brasil, tendo como suporte a Cartografia das Controvérsias. O objetivo principal da disciplina foi o desenvolvimento de instrumentos cartográficos interativos (jogos) que pudessem mapear aspectos do território trabalhado e subsidiar assessorias técnicas populares que objetivem a construção de novos imaginários urbanos.

processos de aproximação do território

Como primeiro exercício, as e os estudantes sistematizaram algumas das práticas mapeadas em uma planilha online, compartilhada entre todas e todos. Essa atividade permitiu aos alunos identificarem que (1) a maior parte das práticas são promovidas por grupos que se formam (com quem) a partir das universidades e ações extensionistas (2) que os discursos norteadores são sustentados (por quê) pela ideia da capacitação e/ou da qualificação dos assessorados; e (3) que os instrumentos de interlocução acionados pelos assessores são, na sua maioria, questionários não-estruturados.  

Para isso, na sequência, a turma foi dividida em três grupos, os quais criaram diferentes jogos com base em um território escolhido – Vale das Ocupações do Barreiro, Ocupação Manoel Aleixo e Ocupação Cidade de Deus. As primeiras aulas explicaram os conceitos da Assessoria Técnica e sua história de evolução no Brasil, além de incentivar a pesquisa de outras assessorias técnicas já existentes e construir repertório através da pesquisa de assessorias técnicas já existentes e apresentação de outros jogos com temáticas similares. A partir do entendimento da proposta, os alunos tiveram contato próximo com outros jogos, como o Kapital e o Ocupa. Após a formação de repertório e acúmulo de inspirações, os jogos começaram a ser confeccionados com base nas potencialidades e problemáticas de cada território. 

Instrumentos dialógicos

Cada grupo foi livre para criar o modelo de jogo que desejasse e, com isso, surgiram três jogos com instrumentos dialógicos diferentes – entre eles tabuleiros interativos, cartas que traziam informações, dilemas, perguntas ou representavam diferentes coisas, etc. –  mas com a intenção em comum de comunicar com os moradores de cada território a fim de discutir problemas e potencialidades de cada local. 

O primeiro grupo, pautado por conflitos socioambientais, teve como referência o Vale das Ocupações do Barreiro, localizado em Belo Horizonte. O jogo criado  uso de um tabuleiro circular, no qual cada jogador começava em uma cor-categoria, articuladas em eixos. Conforme o jogo prosseguia, todos passavam por cada cor-categoria, que correspondia a um eixo temático, sendo que os verbos escolhidos foram: transitar, descartar, relacionar, ensinar, preservar. Ademais, esse jogo fazia uso de cartas com questões sobre a vivência urbana, que tinham que ser respondidas pelos jogadores, um de cada vez e partir dessa resposta, os outros jogadores avaliariam se ela seria satisfatória e, caso fosse, o eixo em que o jogador estava recebia uma estrela. O  jogo produziu uma dinâmica de jogabilidade não-competitiva pautada pelo diálogo e pelo conhecimento prévio e pela vivência de cada jogador, sem impor hierarquias, uma vez que as estrelas eram dadas para o eixo e não para pessoas individuais, e ao final, existia um enigma mais complexo, que deveria ser solucionado conjuntamente. 

O segundo grupo, pautado na discussão sobre a construção de moradias do reassentamento de famílias da Ocupação Manoel Aleixo no município de Santa Luzia, Minas Gerais. O jogo colaborativo, cujo principal objetivo era solucionar uma carta “problemão”, sorteada no início e comum a todos os jogadores, que representava uma situação grave típica de territórios autoconstruídos, como desabamento de terra. Para resolvê-la, era necessário usar as cartas de “recurso” – com quem e com o quê -, onde se encontravam atores humanos e não-humanos capazes de se relacionar para atuar no território. Entretanto, esses recursos iniciais dificilmente seriam suficientes para cumprir o objetivo comum, e o jogo se desenrola com cada jogante sorteando uma situação cotidiana (como acúmulo de recicláveis, planejamento de festas), manifestada por uma carta de “problema”, também resolvida pelas cartas de recurso. Cada carta de “problema” solucionada era recompensada com novas cartas de “recursos”, que poderiam ajudar a resolver o “problemão” do território.

O terceiro território escolhido foi a Ocupação Cidade de Deus, em Sete Lagoas, pautando debates sobre parcelamento, urbanismo e vizinhanças. O jogo criado chama-se “Urbanizze CDD” e faz uso de um suporte de tabuleiro e cartas, no qual o percurso era linear e as cartas também tinham a função de apresentar situações cotidianas para debate e resolução de problemas. As cartas eram divididas em temas e colocadas em cinco envelopes: vegetação, água, energia, mobilidade e gestão de resíduos. A partir da trajetória descrita por cada jogador no tabuleiro, tiravam-se cartas e as perguntas que eram sorteadas tinham que ser respondidas e depois poderiam ser questionadas e avaliadas pelos demais jogadores, configurando por votação a pontuação. Existe também um componente de construção no jogo, realizado a partir das moedas que os jogadores conseguem ao responder às perguntas.

Depois da finalização dos instrumentos cartográficos, ocorreu uma troca na qual os grupos conheceram e jogaram todos os jogos para que pudessem testar a funcionalidade e sugerir alterações de melhorias. Nessa etapa, uma pessoa de cada grupo ficava como mediador para ajudar os participantes. O trabalho em grupo gerou muitas discussões e retornos que puderam ser usados para aprimorar o resultado final.

propostas

A partir das discussões feitas e alterações propostas durante as rodadas de jogos, cada grupo finalizou os seus jogos para uma última rodada, na qual as professoras e os alunos puderam apontar as suas contribuições e opiniões sobre os resultados finais. Dessa forma, a discussão foi muito produtiva e gerou muitos ensinamentos interessantes sobre o que se propõe a assessoria técnica e de quais formas podem ser trabalhadas as questões de moradia com as pessoas que convivem com elas diariamente.